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Literatura japonesa: o terror sem limites de Shintaro Kago

 


#37 - Quinta-feira, 11 de abril de 2024
Resenha

Terror sem limites

Shintaro Kago não poupa detalhes sórdidos e explora possibilidades do mangá ao se inserir em Pedacinhos

Nudez, cadáveres, órgãos, cocô, tortura e sadomasoquismo. As palavras não costumam frequentar o vocabulário desta revista, mas é com elas que Shintaro Kago define seu estilo no mangá Pedacinhos. Ali, explora o que os japoneses chamam de ero guro, uma contração dos termos em inglês para “erótico” e “grotesco”.
 


 

A princípio, a história de Pedacinhos parece simples. O leitor acompanha um assassino em série conhecido como “o maníaco fatiador”. O apelido é autoexplicativo: trata-se de um maníaco que fatia as suas vítimas. Segue sempre a mesma rotina, caçando mulheres uma vez por mês, que é o tempo que, explica, ele leva para recarregar suas energias sinistras.

O leitor entende de imediato quem é o assassino, então não há mistério. Essa, porém, é apenas a epiderme do mangá. Kago logo arranca essa camada com violência, fazendo jus ao seu estilo. Debaixo, entre vasos sanguíneos rompidos, há uma história bem mais complicada. Há dois pontos de vista em Pedacinhos. O primeiro é o do maníaco fatiador. O segundo é o do próprio Kago, que não só quebra a quarta parede — ele a destroça. Fala com o leitor e explica suas decisões artísticas. Aos poucos, começa a adentrar o enredo e interagir com os personagens. Ali, acaba se sujando de sangue e entranhas.

Leia a íntegra da resenha de Diogo Bercito

Leia tambémO primeiro mangá de Shintaro Kago publicado no Brasil traz mescla de erotismo, grotesco e escatologia do gênero ero-guro

(No alto da newsletter, ilustração de Shintaro Kago/Divulgação)

Trecho

Passagem entre a vida e a morte

Em A lanterna das memórias perdidas, de Sanaka Hiiragi, as pessoas têm o poder de reviver seus melhores momentos por meio de fotos; leia trecho 

— Quero lhe fazer uma pergunta e, se ela lhe soar estranha, peço desculpas desde já.
— Claro — disse Hirasaka, esperando que ela prosseguisse.
— Hum... Por acaso eu morri?
— Sim, há alguns instantes. Normalmente, começo explicando esse fato, mas algumas poucas pessoas percebem por conta própria.

A resposta soou tão natural que Hatsue sentiu um turbilhão de emoções: alívio, perplexidade e até uma certa satisfação pelo elogio à sua perspicácia, claramente implícito nas palavras de Hirasaka.

O chá estava do jeito que ela gostava, nem forte demais nem muito fraco.

Se ela havia morrido, seu aspecto deveria ser outro, isto é, o de alguém indiscutivelmente morto, conforme sempre imaginara. Por exemplo, um pedaço de pano triangular deveria estar colado à sua testa, e seu corpo, translúcido. Mas os pés continuavam firmes no chão! A sensação da xícara em suas mãos, o gosto do chá, nada havia mudado.

Hirasaka sentou-se na poltrona diante dela e observou-a com atenção.

Com os pensamentos em turbilhão, Hatsue disse:

— Mas... veja bem. Sempre imaginei que, quando eu fosse para o além, alguém muito próximo a mim, como meu pai, minha mãe ou meu marido, viria me buscar, entende?

No entanto, e contrariando todas as suas expectativas, fora esse tal Hirasaka, homem que ela nunca vira antes, que aparecera para buscá-la... Seu rosto talvez refletisse um pouco da tristeza que lhe ia no íntimo, pois Hirasaka apressou-se a explicar:

— Não, não. Este local é uma espécie de ponto de passagem. 
 


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Clube de leitura

Haruki Murakami e um herói sem cor

O romance O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, do autor japonês, será tema de encontro de abril, com a presença de Pedro Pacífico

Fenômeno de vendas no Japão e no mundo, Haruki Murakami volta a ser tema do Clube de Leitura Japan House São Paulo + Quatro Cinco Um no 51º encontro com os leitores, no dia 25 de abril. O título escolhido é O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, publicado pela Alfaguara em 2014 com tradução de Eunice Suenaga. Para debater o romance, o convidado é Pedro Pacífico, advogado, escritor e influencer que compartilha suas leituras no perfil Bookster.

Em O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, Murakami retoma alguns dos temas que permeiam suas histórias, como memória, solidão e o desconhecido. Tazaki é um homem solitário que vive em Tóquio, onde trabalha na construção de estações de trem. Atormentado por um trauma sofrido dezesseis anos antes, quando foi expulso de um grupo de amigos inseparáveis, ele decide reencontrá-los, numa jornada para tentar entender melhor o passado e a si mesmo. 
 


O encontro será na quinta, 25, às 19 horas, via Zoom. Participantes do clube têm 20% de desconto na compra pelo site da editora Companhia das Letras, por meio do cupom JHSP451ABR24 (válido até 30 de abril). O cupom não é aplicado ao valor do frete e só pode ser usado para um CPF.

Desde 2019, o clube de leitura já recebeu grandes profissionais da tradução japonesa no Brasil, autores brasileiros contemporâneos, editores, críticos, jornalistas e personalidades da cultura para discutir obras de Murakami, Sayaka Murata, Yoko Ogawa, Yoko Tawada, Banana Yoshimoto, Yoshiharu Tsuge e muitos outros mestres de uma tradição literária de enorme força e beleza. Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da Japan House São Paulo, e Paulo Werneck, diretor de redação da Quatro Cinco Um, compartilham a curadoria e a mediação dos encontros.

Clube de Leitura Japan House São Paulo + Quatro Cinco Um
LivroO incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação, de Haruki Murakami
Data: 25 de abril
Hora: 19h (duração aproximada de 1h30)
Local: on-line
Valor: gratuito
Inscriçãoneste link (vagas limitadas)

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(No alto, o escritor Haruki Murakami. K. Kurigami/Divulgação)

Lançamento

Um romance controverso

Yoko Ogawa está de volta às livrarias brasileiras com Hotel Íris, que narra relação violenta entre uma adolescente e um homem mais velho

Autora de romances premiados, a japonesa Yoko Ogawa é conhecida por abordar o tema da memória em ficções nada óbvias. Em Hotel Íris, que chega ao Brasil pela Estação Liberdade com tradução de Jefferson José Teixeira, a escritora dá mais mostras da sofisticação de sua prosa ao narrar um romance controverso. 
 

 
A história é narrada por Mari, uma adolescente de dezessete anos que trabalha na recepção do hotel da família e se sente atraída por um hóspede misterioso, que conta cerca de sessenta anos e tem um passado suspeito quanto à morte da esposa. Os dois iniciam um relacionamento com uma busca pelo prazer por meios degradantes, humilhantes e violentos. Em uma narrativa envolvente, a personagem questiona recordações pessoais e alheias enquanto afirma, referindo-se ao próprio caso, expor “o lado mais abjeto de um ser humano”.
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